O BEBÊ
O BEBÊ
Estivesse eu vivendo a mulher de Ló,
Decerto não voltaria o curioso olhar
Para o que se findara. Voltar ao pó
É a história de todos, viver é sonhar...
Precisamos, eu e o marido, oração e bênção,
Temos a proteger o pequeno aos braços,
O mar é surpresa: chuva, vento, armação;
E o mareado, em balanço, vence espaços,
Mas faz o bebê enjoar. O único sabonete
É para banhá-lo e lavar meus mamilos.
Limpo sua boca com bicarbonato,
Tenho-o sempre ao peito, frente ao coração,
Como se quisesse reverter seu parto,
Sabê-lo seguro, e refazer sua concepção.
Soneto que se refere à memória da migração da família Rodrigues da Ilha da Madeira para o Brasil em 1952. Este é do período da viagem ainda no barco.
ANGÚSTIA
E vem por dentro do meu peito,
Mas não sei certo descrever;
Um desconcerto, um mal sem jeito,
Que não é de falar ou escrever;
É por esse porto de Santos
Que meu coração, espremido,
Chega carregado de prantos
E de emoções esquecido,
É a pureza dessa angústia
Que limpa toda minha mente,
E me deixa a sós, no presente
De maneira abrupta e brusca...
E meu ser, ébrio e delinqüente,
Grita à vida: não me sê injusta...
Refere-se à chegada de Dona Fernanda Rodrigues ao Porto de Santos, onde sentiu a angústia que esvazia o coração do imigrante.
PRESSENTIMENTO
Trouxe-te bem guardado e protegido,
Nessa bolsa, em aquecido mergulho,
Nessa origem de um milagre vivido,
No misto de emoção, amor e orgulho.
Nesse prodígio te senti crescido:
Contacto externo, o barulho
Abafado por mil folhas de líquido,
Do espírito santo, a presença e o arrulho.
E a mágica da criação em ti contido,
Ao sair de mim traz a vida que pulsa,
E a música do choro ao meu ouvido...
E na ânsia de ter tua história conclusa,
Foi que "-ouvi ser homem pelo doutor..."
"- Há de ser médico como o senhor".
Já com a família estabelecida em São Paulo, sendo esta a terceira gravidez da Sra. Fernanda, em 1954, nasce o filho Jorge que se formará excelente médico ginecologista e grande pintos. Suas obras serão aqui colocadas em breve.
O POETA E O SONETO
Nada existirá a conseguir interromper
Para não tirar o meado deste soneto.
Nem o chegado atropelado, ou o romper
Do dia sem café, colher, claro ou preto,
Deixei as cretinas todas sem responder,
Não posso acordar muito, só o conceito
Fino de consciência, o sumo, e esconder
Planos brutais da mente, o direito e o veto...
E o nirvana, em espírito, devolver,
Um tanto falho na mímica do correto,
Um resolvido imitável pelo concreto.
Chego então com a meada última ao terceto
Sem sol, café, respostas, neurônios: só ver
Que ao soneto, ao poeta, só falta o resolver.
Blog de José Carlos De Gonzalez
Postado em 8 novembro 2009 às 23:25
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ENFEITIÇA-ME
Se tu queres a mim de verdade,
Enfeitiça-me de forma forte,
Use material de qualidade,
De primeira, e conte com a sorte
Para que o vento não apague as velas,
E estude bem a encruzilhada,
Pode ser em xis, de ruas ou ruelas,
Com lama, terra seca ou asfaltada,
Tudo isso o entendido faz, sem azuela,
Porque a festa é só tua, e calada,
(Feitiço não tem parte em janela),
Leva a roupa tua batizada,
Com…
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Postado em 31 outubro 2009 às 19:30
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AO CARO AMIGO POETA
Meu caro amigo poeta, pelos teus escritos
Todos, nada mais, gostaria eu de ser profeta,
Que caminhasse pelos trilhos dos benditos
Arranjos do teu verso, que à alma concerta,
Põe em alinho dores e pensares aflitos,
Do centro, límbicos e os do limbo do asceta,
Retilíneos ou beirais, de mil ais e gritos,
Intangíveis na atitude e na vida poética...
Tivesse eu sido alguém, que douto em particípios,
Servisse ao…
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Postado em 31 outubro 2009 às 18:00
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GOL DE PLACA
A torcedora roía as unhas naquela noite,
Um a um, Brasil e Argentina, no Maraca,
Os deuses do futebol, a jorrar por fontes
A arte daquela época, dos gols de placa.
E este a que vou narrar, a Fera fazia aos montes,
Pelé executou o golpe de misericórdia
A sete minutos do final, mostrou a fronte,
De suor escorrida: disse não àquela concórdia,
Ao empate, ao placar, e se movimenta rápido,
E deixa um marcador parado, a…
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Postado em 24 outubro 2009 às 14:59
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A alguns metros já me fitastes,
cravadas pupilas
no ponto imaginário
em que morava o meu núcleo,
exposto, além do rosto,
e trouxe teus lábios
ao meu beijo,
segurando-te nos braços,
e assim elevei-te do chão
alguns centímetros.
Ele, profundo e sensível,
veio ao suave calor das papilas
da minha língua que te quer,
que te percorre
e que por ti corre e perde,
e se perde
por teus cantos e tuas frestas,
e pelas…
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Postado em 23 outubro 2009 às 11:56
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Há, e quase todos já sabem existir,
E é palavra que figura no Aurélio,
Periódica precessão a revestir
A Terra, o planeta, e o sol de gás Hélio.
Quando vier o equinócio de verão,
Do Norte, dezembro de dois mil e doze,
Haverá mudança polar, inversão,
Trazendo ao Equador, o Alaska, em close,
À Europa lhe caberá a submersão,
E nossa crosta mover-se-á, sem pose.
Liberdade para mar e vulcão...
Todos, em narcose ou…
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